Luiza Ribeiro: O feminismo negro é imprescindível

Desta vez demorei mais para escrever para o Dia Internacional da Mulher. A idéia sempre foi tratar sobre a violência. Provocada pelas insistentes aparições da Globeleza (absurda criação do alemão Hans Donner para significar o carnaval brasileiro), o tema se impôs: falar do Feminismo Negro, esse relevante movimento político das mulheres negras que antes de tudo é ato de resistência pelo desejo de uma vida livre e digna. Mais ainda, representa luta pela própria existência física das mulheres negras, sem exageros, diariamente ameaçada.

Não é fácil escrever, mesmo que poucas linhas, sobre a vida e a batalha das mulheres negras, especialmente porque sou branca e escrevo a partir da minha vivência e, seguramente, a narrativa conterá racismos tênues ou não tão sutis, pelo que desde já peço desculpas às companheiras negras, admitindo as correções.

As mulheres negras, por toda parte, aparecem como maioria das vítimas em diversos indicadores de violações de direitos humanos. No Brasil, as negras sofrem mais violência do que as mulheres brancas. Dados do Ligue 180 (2015), apontam que 59,4% dos registros de violência doméstica referem-se a mulheres negras. Quanto ao feminicídio, as negras são mais de 60% das vítimas. O Ministério da Justiça informa que as mulheres negras são a maioria entre as vítimas de tráfico de pessoas e o Mapa da Violência 2015 mostrou que nos últimos dez anos, diminuiu em 9,6% o assassinato de mulheres brancas no Brasil e aumentou em 54,8% o de mulheres negras.

Pesquisa da Unicef sobre violência sexual, aponta que mulheres negras são mais vítimas dessa violência do que as brancas. Isso não é por acaso. A razão está no legado histórico da colonização brasileira que escravizou negros por mais de 300 anos. Mulheres negras escravas eram forçadas a variadas formas de violência pelos senhores (e depois por patrões e seus herdeiros). A miscigenação tão romantizada teve origem nos rotineiros estupros cometidos contra mulheres negras. Até hoje a mulher negra é hipersexualizada, vista como objeto, ao inacreditável Mulata Globeleza ainda passear como símbolo do produto brasileiro no carnaval.

68% das mulheres aprisionadas são negras, pobres, jovens, mães e com pouco tempo de estudo, de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias.

Se analisar o mercado de trabalho, a trabalhadora negra é a mais discriminada. Não raro ficam por último para conseguirem um emprego e, em geral nas crises, são as primeiras a serem demitidas. Sobre a diferença de salários entre homens e mulheres, a mulher negra amarga distancia maior. Enquanto a média salarial das mulheres brancas é de R$ 797,00, a das mulheres negras é de R$ 436,00. Homens brancos têm salário médio de R$ 1.278,00. A luta pela equiparação de salários entre homens e mulheres deve aludir também à situação da mulher negra.

Segundo pesquisas do Ministério do Trabalho, elas são também a maioria entre as vítimas de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho.

A maioria das empregadas domésticas é formada por mulheres negras (62%), sendo o emprego doméstico o mais desprestigiado entre todos, com direitos trabalhistas reconhecidos muito recentemente pela chamada PEC das Domésticas. E mesmo esse avanço ainda não se tornou realidade. Diante de lesão trabalhista, exigir direitos muitas vezes é motivo de demissão. Não raro desistem de fazer valer seus direitos ante as ameaças e o assédio moral dos contratantes.

Esses indicadores, entre outros, apresentam disparidades entre mulheres brancas e negras que fundamentam a necessidade de uma vertente específica dentro do Feminismo. Nos últimos anos as ruas receberam a Marcha das Mulheres Negras, em luta aberta e política contra o machismo e o racismo, também contra lesbofobia e toda forma de preconceito e opressão.

O Feminismo Negro é mais do que imprescindível para dar visibilidade à inaceitável opressão, como ser provocador de mudança protagonizada pelas mulheres negras.

Luiza Ribeiro é filiada ao PPS, feminista e advogada

Fonte: www.pps.org.br/2017/03/08/luiza-ribeiro-o-feminismo-negro-e-imprescindivel/